Algoritmos da Torre de Babel

Trata-se de uma boa notícia, mesmo em um mar de más notícias: entidades da área de comunicação enviaram esta semana ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM) sugestões para o projeto de lei que estabelece medidas contra a disseminação de conteúdo falso na internet, as chamadas fake news.

Qual o foco principal?

Entre os objetivos da carta, assinada por 27 instituições, está a aplicação nas redes das leis brasileiras de contratação de publicidade e impulsionamento de conteúdo, o que permitiria distinguir o que é publicidade e o que é notícia, além de assegurar transparência sobre a origem dos recursos usados no financiamento de conteúdos. Isso é transparência. Esse projeto vai gerar polêmica. Afinal, ele trafega na linha tênue entre a necessidade de conter o fluxo industrial de fake news e a liberdade de expressão. As redes são territórios voláteis.

Em alguns momentos, me fazem lembrar do mito bíblico da Torre de Babel. O enredo é conhecido: vendo o povo erguer uma torre tão alta que alcançaria o céu, Deus decidiu confundir a língua da humanidade, para que uma pessoa não entendesse a outra. Naquela confusão de vozes desconexas, a torre foi abandonada. Nas redes, uma babel desconexa domina o espaço. Tornar essa babel de algoritmos menos permeável à disseminação de conteúdo falso é o alvo do projeto. Por ironia, ele próprio, como foi aprovado pelo Senado, é uma babel de tendências divergentes. No artigo 12, cede às plataformas digitais o poder de decidir o que pode ser publicado. Quem fará essa censura prévia? Difícil precisar. Em outro ponto, fala em obrigar usuários de celulares pré-pagos a registrar CPF e RG para comprar um chip, mas passa ao largo de responsabilizar Google e Facebook por veicularem fake news em seus links e estarem povoados de perfis falsos, como observou o jornalista Fernando Rodrigues, do jornal digital “Poder 360”.

A quem cabe decidir sobre isso? Pela estrutura de poderes, ao Congresso Nacional. Mas é bom a sociedade acompanhar bem de perto. Afinal, ele vai definir como vamos nos comunicar nos próximos anos, dentro dessa imensa Torre de Babel.

Somos um país com 209 milhões de médicos

Já fomos assim com o futebol e, recentemente, com o Direito, quando o STF decidia sobre a prisão em segunda instância.

Agora, chegamos à Medicina.

Depois de sermos, por décadas, milhões de técnicos de futebol e milhões de magistrados na era Lava-Jato, agora somos 209,5 milhões de médicos a debater, sem pudor, protocolos médicos no tratamento do novo coronavírus, uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19, pesquisas sobre vacinas salvadoras e estatísticas sobre a pandemia.

Do presidente ao motorista de Uber, viramos virologistas, doutores em biologia molecular, sanitaristas de mão-cheia. Mesmo sem registro no CRM, Jair Bolsonaro festeja ter contraído a doença e continua a receitar cloroquina como panaceia universal, espécie de elixir mágico que os doutores de araque receitavam antigamente para dores estomacais, câncer e soluço. Outro dia, um motorista de aplicativo me deu uma aula sobre como o governo mascara os números da Covid-19.

Como a corrida foi curta, fiquei sem entender se era para mais ou menos. Mas a convicção do motorista quase me convenceu. E como somos convictos: um amigo, empresário, decidiu ignorar os protocolos de saúde fiel às orientações de Bolsonaro de que o novo coronavírus é uma chuva que, hora ou outra, vai molhar a gente. Mas, pensei, não dá para usar guarda-chuva?

Seria engraçado se não fosse trágico. Tem gente, como Bolsonaro e seu histórico de atleta, que não dá a mínima. Ou usa a doença como palanque político (pior, ele não está sozinho; tem espaço para João Doria e outros). Mas, tudo bem. Afinal, somos um país de 209,5 milhões de médicos, cujo presidente virou garoto-propaganda de um medicamento, o governador inventou a quarentena-sanfona e os recursos da Saúde acabam no sorvedouro da corrupção. Parecemos acreditar que, como nos filmes de médico na TV -do antigo Doutor Kildare até o recente Shaun Murphy, de “The Good Doctor”, sem esquecer Francisco Cuoco, em “Obrigado Doutor”–, os fatos vão se encaixar rumo ao final feliz. Não é verdade. No país do Doutor Bolsonaro, a trama parece comédia, escorregada para farsa, mas é, na verdade, uma tragédia..

Toda censura é burra. Ou, obrigado, Bozo

Meu pai, Hélcio Costa, médico, foi um dos coordenadores do combate à epidemia de meningite que atingiu o Vale do Paraíba nos anos 70.

Foram dias difíceis.

Pouco via meu pai. Ele saia cedo, voltava tarde, passava o dia em Tremembé, onde, no Hospital Bom Jesus, foi instalado o QG do combate à doença. Em casa, ficou mais calado. Nossa rotina mudou. Regras de higiene mais rígidas foram adotadas. Aulas foram suspensas. Eu, minha irmã e minha mãe deixamos Taubaté e fomos para nossa terra, Piraju, longe do epicentro. Em conversa com meus tios, meu pai narrou as dificuldades de conter o surto e falou sobre a censura sobre a doença. Nada sobre meningite podia ser publicado, por ordem do governo. Era epidemia invisível. Leitor do “Estadão”, meu pai mostrou: no lugar dessa receita de bolo devia estar a notícia dos riscos que todos corremos. Foi ali, na receita, que tive meu primeiro contato com a palavra “censura”.

Voltei a cruzar com ela diversas vezes como jornalista. Aprendi a combate-la e descobri que toda censura é, antes de tudo, burra.

Isso me meio à mente ao ver as tentativas de Jair Bolsonaro para atrapalhar a divulgação dos números de mortes causadas pelo novo coronavírus. Números e dados são essenciais. Sem eles, ações viram castelos de areia.

Para sorte nossa (e azar de Bozo), não estamos mais em uma ditadura. A “matemágica” do (des) governo ruiu. O STF determinou que a contagem real de casos fossem retomada. Órgãos de imprensa se uniram para divulgar seus próprios números, baseados nos dados (públicos, é bom frisar) fornecidos pelos Estados. No Congresso, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, constrangido, teve que desdizer o que havia dito ao tomar um pito dos deputados. Não era bem assim, disse, ao ver seu nariz crescer tal qual Pinóquio. Enfim, houve uma reação ampla da sociedade e das instituições a mais essa burrice de Bozo.

É caso de agradecer: obrigado, presidente, você, com sua incompetência, fez reagir um Brasil que parecia tão apático. Talkey?

‘Este é um país que vai pra frente’

Algumas coisas melhoram com o tempo, como o vinho. Outras, pioram.

Nos vinhos, algumas sensações só são reveladas com o tempo. São aromas terciários, formados durante lenta oxidação. É dentro das garrafas que se forma o “buquê”, a personalidade do vinho, que lembra o aroma de frutos secos, amêndoas, bagaço envelhecido em silêncio, sombras e solidão. Poético? Sim, mas vinhos também podem envelhecer mal, transformados no mais amargo vinagre. Aí voltamos à frase inicial, com um adendo: algumas coisas melhoraram com o tempo, como o vinho; outras, pioram, como eu e Regina Duarte.

Para mim, o tempo trouxe dores que não conhecia.

Para a “Namoradinha do Brasil”, o tempo trouxe o que parece ser loucura. Pensei nisso ao ver suas últimas entrevistas, olhos arregalados, falando, falando, falando coisas sem lé nem cré. Não vi sombra da órfã Patrícia e da aeromoça Cecília, papéis que a lançaram ao estrelato. Nem da Viúva Porcina. Muito menos de Malú. Regina estava mais para Luana Camará rendida, enfim, à sua entidade espiritual Priscila Capricce, como em “Sétimo Sentido”, última novela de Janete Clair. Nas entrevistas, Regina parece possuída. Grita. Do nada, canta. Depois se cala. Reclama. Reclama das perguntas. Reclama das respostas.

Regina tem, como qualquer pessoa, o direito de pensar e falar o que quiser. Quando foi indicada secretária nacional de Cultura, achei natural. Não torço contra. Ela gosta de Jair Bolsonaro? Problema dela. Eu não? Problema meu. Segue o baile. Simples assim? Sim, mas, na prática, não foi. Não por culpa minha. Eu esqueci Regina. Soube depois que ela não tem mais contrato com a Globo e que vem sofrendo ataques de Bolsonaro. Só voltei a ver Regina nas entrevistas recentes. E fiquei assustado.

Para afastar o ruim, mergulhamos de cabeça no pior. Para superar isso não basta entoar a Canção do Exército, nem cantar “Pra frente Brasil”. Temos que abandonar personagens, aposentar Priscila Capricce e voltar a ser gente. Voltar a ser povo. Tão diferentes, tão iguais..

Breve reflexão sobre a vida em tempo de guerra

Meu pai era médico e por isso, com toda certeza, levo muito a sério o que dizem os médicos. Posso nem sempre concordar com eles, mas levo. Dito isso, confesso: nem sempre foi assim. Até os 50 anos, vivi como se fosse imortal. A vida foi boa e perdoou a minha ousadia. Permaneço por aqui.

Depois, cruzando o Cabo da Boa Esperança, veio a pressão alta e cuidados aqui e ali. Mas, vira e mexe ainda sou o paciente teimoso, atraso entrega de exames tão logo me sinta bem, para irritação da minha mulher e dos meus filhos, Felipe, o caçula, em especial. Voltando ao começo desse texto, no entanto, levo sempre muito a sério o que os médicos dizem. Por isso, tão logo surgiram as primeiras informações sobre o novo coronavírus, passei a acompanhar a evolução da Covid-19 com atenção e, especialmente, o que os médicos diziam sobre o vírus e a doença. E o que eles diziam (e dizem) é sério: vamos viver dias difíceis, ameaçados por um vírus para o qual ainda não há cura, dias que vão mexer com a nossa vida, com a saúde e a economia, dias de sofrimento e morte. O que fazer? Como sobreviver como pessoa, como sociedade?

A arma mais eficaz que temos, até agora, é o tempo.

Mesmo que muitos teimem em desperdiça-lo, como faz, o presidente Jair Bolsonaro, é o tempo que nos protege. Tempo usado para retardar a disseminação do vírus. O “achatar da curva”, como dizem os especialistas. Tempo usado em busca da cura. Tempo usado para montar estratégias que permitam que a sociedade continue a funcionar em meio à crise. Tempo usado para redesenhar métodos, processos, nosso cotidiano.

Tenho trabalhado muito, mais que o normal, acho que nunca trabalhei tanto, em busca de saídas. Mas quase sempre em casa. Reuniões? Diversas, mas on-line. Equipe? Todos em casa. Saio pouco: supermercado, padaria, banco, alguma entrevista. Faço contas, de olho no futuro. Tirei um tempo para colocar a leitura em dia.

Gostei muito de “Beije-me onde o Sol não alcança”, de Mary del Priore, que traz, entre seus personagens, uma parente distante, Ana Clara Breves de Moraes, Nicota, sobrinha do maior produtor de café do Brasil no Segundo Império. Recomendo. Acompanho as postagens de Emanuel Fernandes e seu diário de um dia da crise. “Insight: ler um livro é uma forma de ouvir gente que está longe no espaço e no tempo”, escreveu ele, outro dia, o 17o da quarentena. Pelo zap, troco receitas com filha Marina, que mora em Curitiba. Me preocupo com meus filhos, que saem para trabalhar. Quanto tempo tudo isso vai durar? Antes de melhorar, vai piorar? Vai melhorar?

Sem resposta, levo a sério o que dizem os médicos. Fico em casa. Quase sempre.