Debates entre candidatos são necessários, aliás, mais que isso, são essenciais em uma campanha eleitoral.

Mas, falando francamente, é preciso repensar o formato deles para que esses confrontos tenham, realmente, algum efeito positivo para o eleitor. Com as regras atuais, engessadas, geralmente o resultado é um grande e monótono empate. E, olha, digo isso 48 horas depois de um bom debate, realizado pela Rede Band Vale, em parceria com o jornal OVALE, na noite da última quinta-feira, entre os candidatos a prefeito de São José dos Campos.

Se não teve nocaute, serviu para definir o posicionamento de cada um nesse início de campanha. Um posicionamento que começa a clarear, de fato, a partir do dia 9, quando terá início o horário eleitoral gratuito de rádio e TV, vai ser divulgado o resultado da primeira pesquisa Ibope, encomendada pela Rede Vanguarda. Números que podem deixar alguns com um sorriso de orelha a orelha e, outros, com cara de tacho. Vamos ver.

Mas, retomando o fio da meada, o formato atual de debates é engessado.

Perguntas escolhidas, respostas ensaiadas, frases de efeito, gravata combinando com o cenário, regras rígidas, os candidatos mergulham em um cenário tenso, mas, acredite, controlado. É obra do marketing, da ilusão, do superficial. Por isso, geralmente, sabatinas com um candidato só funcionam mais para tirar dúvidas, aprofundar temas. Para salvar os debates é necessário, com urgência, tirar os candidatos da zona de conforto, do livrinho que eles carregam para cima e para baixo, das frases decoradas. O eleitor teria informação mais consistentes sobre cada um dos candidatos se eles travessem uma luta na lama, um campeonato de torta na cara, disputassem a Dança dos Famosos ou um Master Chef entre prefeituráveis. Veríamos, aí sim, pessoas mais ou menos reais em situações mais ou menos reais e fora de controle, como é, de fato, na vida.

Teríamos, com certeza, representantes mais verdadeiros, uma democracia exercida com mais transparência e, claro, nos divertiríamos muito mais.

Algoritmos da Torre de Babel

Trata-se de uma boa notícia, mesmo em um mar de más notícias: entidades da área de comunicação enviaram esta semana ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM) sugestões para o projeto de lei que estabelece medidas contra a disseminação de conteúdo falso na internet, as chamadas fake news.

Qual o foco principal?

Entre os objetivos da carta, assinada por 27 instituições, está a aplicação nas redes das leis brasileiras de contratação de publicidade e impulsionamento de conteúdo, o que permitiria distinguir o que é publicidade e o que é notícia, além de assegurar transparência sobre a origem dos recursos usados no financiamento de conteúdos. Isso é transparência. Esse projeto vai gerar polêmica. Afinal, ele trafega na linha tênue entre a necessidade de conter o fluxo industrial de fake news e a liberdade de expressão. As redes são territórios voláteis.

Em alguns momentos, me fazem lembrar do mito bíblico da Torre de Babel. O enredo é conhecido: vendo o povo erguer uma torre tão alta que alcançaria o céu, Deus decidiu confundir a língua da humanidade, para que uma pessoa não entendesse a outra. Naquela confusão de vozes desconexas, a torre foi abandonada. Nas redes, uma babel desconexa domina o espaço. Tornar essa babel de algoritmos menos permeável à disseminação de conteúdo falso é o alvo do projeto. Por ironia, ele próprio, como foi aprovado pelo Senado, é uma babel de tendências divergentes. No artigo 12, cede às plataformas digitais o poder de decidir o que pode ser publicado. Quem fará essa censura prévia? Difícil precisar. Em outro ponto, fala em obrigar usuários de celulares pré-pagos a registrar CPF e RG para comprar um chip, mas passa ao largo de responsabilizar Google e Facebook por veicularem fake news em seus links e estarem povoados de perfis falsos, como observou o jornalista Fernando Rodrigues, do jornal digital “Poder 360”.

A quem cabe decidir sobre isso? Pela estrutura de poderes, ao Congresso Nacional. Mas é bom a sociedade acompanhar bem de perto. Afinal, ele vai definir como vamos nos comunicar nos próximos anos, dentro dessa imensa Torre de Babel.

Somos um país com 209 milhões de médicos

Já fomos assim com o futebol e, recentemente, com o Direito, quando o STF decidia sobre a prisão em segunda instância.

Agora, chegamos à Medicina.

Depois de sermos, por décadas, milhões de técnicos de futebol e milhões de magistrados na era Lava-Jato, agora somos 209,5 milhões de médicos a debater, sem pudor, protocolos médicos no tratamento do novo coronavírus, uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19, pesquisas sobre vacinas salvadoras e estatísticas sobre a pandemia.

Do presidente ao motorista de Uber, viramos virologistas, doutores em biologia molecular, sanitaristas de mão-cheia. Mesmo sem registro no CRM, Jair Bolsonaro festeja ter contraído a doença e continua a receitar cloroquina como panaceia universal, espécie de elixir mágico que os doutores de araque receitavam antigamente para dores estomacais, câncer e soluço. Outro dia, um motorista de aplicativo me deu uma aula sobre como o governo mascara os números da Covid-19.

Como a corrida foi curta, fiquei sem entender se era para mais ou menos. Mas a convicção do motorista quase me convenceu. E como somos convictos: um amigo, empresário, decidiu ignorar os protocolos de saúde fiel às orientações de Bolsonaro de que o novo coronavírus é uma chuva que, hora ou outra, vai molhar a gente. Mas, pensei, não dá para usar guarda-chuva?

Seria engraçado se não fosse trágico. Tem gente, como Bolsonaro e seu histórico de atleta, que não dá a mínima. Ou usa a doença como palanque político (pior, ele não está sozinho; tem espaço para João Doria e outros). Mas, tudo bem. Afinal, somos um país de 209,5 milhões de médicos, cujo presidente virou garoto-propaganda de um medicamento, o governador inventou a quarentena-sanfona e os recursos da Saúde acabam no sorvedouro da corrupção. Parecemos acreditar que, como nos filmes de médico na TV -do antigo Doutor Kildare até o recente Shaun Murphy, de “The Good Doctor”, sem esquecer Francisco Cuoco, em “Obrigado Doutor”–, os fatos vão se encaixar rumo ao final feliz. Não é verdade. No país do Doutor Bolsonaro, a trama parece comédia, escorregada para farsa, mas é, na verdade, uma tragédia..

Toda censura é burra. Ou, obrigado, Bozo

Meu pai, Hélcio Costa, médico, foi um dos coordenadores do combate à epidemia de meningite que atingiu o Vale do Paraíba nos anos 70.

Foram dias difíceis.

Pouco via meu pai. Ele saia cedo, voltava tarde, passava o dia em Tremembé, onde, no Hospital Bom Jesus, foi instalado o QG do combate à doença. Em casa, ficou mais calado. Nossa rotina mudou. Regras de higiene mais rígidas foram adotadas. Aulas foram suspensas. Eu, minha irmã e minha mãe deixamos Taubaté e fomos para nossa terra, Piraju, longe do epicentro. Em conversa com meus tios, meu pai narrou as dificuldades de conter o surto e falou sobre a censura sobre a doença. Nada sobre meningite podia ser publicado, por ordem do governo. Era epidemia invisível. Leitor do “Estadão”, meu pai mostrou: no lugar dessa receita de bolo devia estar a notícia dos riscos que todos corremos. Foi ali, na receita, que tive meu primeiro contato com a palavra “censura”.

Voltei a cruzar com ela diversas vezes como jornalista. Aprendi a combate-la e descobri que toda censura é, antes de tudo, burra.

Isso me meio à mente ao ver as tentativas de Jair Bolsonaro para atrapalhar a divulgação dos números de mortes causadas pelo novo coronavírus. Números e dados são essenciais. Sem eles, ações viram castelos de areia.

Para sorte nossa (e azar de Bozo), não estamos mais em uma ditadura. A “matemágica” do (des) governo ruiu. O STF determinou que a contagem real de casos fossem retomada. Órgãos de imprensa se uniram para divulgar seus próprios números, baseados nos dados (públicos, é bom frisar) fornecidos pelos Estados. No Congresso, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, constrangido, teve que desdizer o que havia dito ao tomar um pito dos deputados. Não era bem assim, disse, ao ver seu nariz crescer tal qual Pinóquio. Enfim, houve uma reação ampla da sociedade e das instituições a mais essa burrice de Bozo.

É caso de agradecer: obrigado, presidente, você, com sua incompetência, fez reagir um Brasil que parecia tão apático. Talkey?

‘Este é um país que vai pra frente’

Algumas coisas melhoram com o tempo, como o vinho. Outras, pioram.

Nos vinhos, algumas sensações só são reveladas com o tempo. São aromas terciários, formados durante lenta oxidação. É dentro das garrafas que se forma o “buquê”, a personalidade do vinho, que lembra o aroma de frutos secos, amêndoas, bagaço envelhecido em silêncio, sombras e solidão. Poético? Sim, mas vinhos também podem envelhecer mal, transformados no mais amargo vinagre. Aí voltamos à frase inicial, com um adendo: algumas coisas melhoraram com o tempo, como o vinho; outras, pioram, como eu e Regina Duarte.

Para mim, o tempo trouxe dores que não conhecia.

Para a “Namoradinha do Brasil”, o tempo trouxe o que parece ser loucura. Pensei nisso ao ver suas últimas entrevistas, olhos arregalados, falando, falando, falando coisas sem lé nem cré. Não vi sombra da órfã Patrícia e da aeromoça Cecília, papéis que a lançaram ao estrelato. Nem da Viúva Porcina. Muito menos de Malú. Regina estava mais para Luana Camará rendida, enfim, à sua entidade espiritual Priscila Capricce, como em “Sétimo Sentido”, última novela de Janete Clair. Nas entrevistas, Regina parece possuída. Grita. Do nada, canta. Depois se cala. Reclama. Reclama das perguntas. Reclama das respostas.

Regina tem, como qualquer pessoa, o direito de pensar e falar o que quiser. Quando foi indicada secretária nacional de Cultura, achei natural. Não torço contra. Ela gosta de Jair Bolsonaro? Problema dela. Eu não? Problema meu. Segue o baile. Simples assim? Sim, mas, na prática, não foi. Não por culpa minha. Eu esqueci Regina. Soube depois que ela não tem mais contrato com a Globo e que vem sofrendo ataques de Bolsonaro. Só voltei a ver Regina nas entrevistas recentes. E fiquei assustado.

Para afastar o ruim, mergulhamos de cabeça no pior. Para superar isso não basta entoar a Canção do Exército, nem cantar “Pra frente Brasil”. Temos que abandonar personagens, aposentar Priscila Capricce e voltar a ser gente. Voltar a ser povo. Tão diferentes, tão iguais..

Breve reflexão sobre a vida em tempo de guerra

Meu pai era médico e por isso, com toda certeza, levo muito a sério o que dizem os médicos. Posso nem sempre concordar com eles, mas levo. Dito isso, confesso: nem sempre foi assim. Até os 50 anos, vivi como se fosse imortal. A vida foi boa e perdoou a minha ousadia. Permaneço por aqui.

Depois, cruzando o Cabo da Boa Esperança, veio a pressão alta e cuidados aqui e ali. Mas, vira e mexe ainda sou o paciente teimoso, atraso entrega de exames tão logo me sinta bem, para irritação da minha mulher e dos meus filhos, Felipe, o caçula, em especial. Voltando ao começo desse texto, no entanto, levo sempre muito a sério o que os médicos dizem. Por isso, tão logo surgiram as primeiras informações sobre o novo coronavírus, passei a acompanhar a evolução da Covid-19 com atenção e, especialmente, o que os médicos diziam sobre o vírus e a doença. E o que eles diziam (e dizem) é sério: vamos viver dias difíceis, ameaçados por um vírus para o qual ainda não há cura, dias que vão mexer com a nossa vida, com a saúde e a economia, dias de sofrimento e morte. O que fazer? Como sobreviver como pessoa, como sociedade?

A arma mais eficaz que temos, até agora, é o tempo.

Mesmo que muitos teimem em desperdiça-lo, como faz, o presidente Jair Bolsonaro, é o tempo que nos protege. Tempo usado para retardar a disseminação do vírus. O “achatar da curva”, como dizem os especialistas. Tempo usado em busca da cura. Tempo usado para montar estratégias que permitam que a sociedade continue a funcionar em meio à crise. Tempo usado para redesenhar métodos, processos, nosso cotidiano.

Tenho trabalhado muito, mais que o normal, acho que nunca trabalhei tanto, em busca de saídas. Mas quase sempre em casa. Reuniões? Diversas, mas on-line. Equipe? Todos em casa. Saio pouco: supermercado, padaria, banco, alguma entrevista. Faço contas, de olho no futuro. Tirei um tempo para colocar a leitura em dia.

Gostei muito de “Beije-me onde o Sol não alcança”, de Mary del Priore, que traz, entre seus personagens, uma parente distante, Ana Clara Breves de Moraes, Nicota, sobrinha do maior produtor de café do Brasil no Segundo Império. Recomendo. Acompanho as postagens de Emanuel Fernandes e seu diário de um dia da crise. “Insight: ler um livro é uma forma de ouvir gente que está longe no espaço e no tempo”, escreveu ele, outro dia, o 17o da quarentena. Pelo zap, troco receitas com filha Marina, que mora em Curitiba. Me preocupo com meus filhos, que saem para trabalhar. Quanto tempo tudo isso vai durar? Antes de melhorar, vai piorar? Vai melhorar?

Sem resposta, levo a sério o que dizem os médicos. Fico em casa. Quase sempre.

Uma floresta do tamanho do planeta

Quando entrei na faculdade, aos 16 anos, décadas atrás, coloquei uma mochila nas costas e viajei pelo Brasil do Oiapoque ao Chuí antes do início das aulas.

De carona.

Contando moedas e trabalhando aqui e acolá para me manter na estrada. Foi uma experiência ímpar. Nessa viagem, descobri, na prática, o tamanho do Brasil e como ele era (e é) um país cheio de contrastes, desigualdades e, em especial, beleza. Nessa jornada, lembro da seca e dos rostos que encontrei à beira da Belém-Brasília e o impacto que tive ao ver, pela primeira vez, a Amazônia, árvores imensas semicobertas pela neblina. De “gaiola”, dormindo em rede, cheguei a Santarém, depois a Manaus.

A volta, por barco e estrada, a mata ora se afastava, ora se fechava ao redor. Me senti pequeno. Tive essa mesma sensação, anos depois, jornalista, ao percorrer parte da Transamazônica e a sobrevoar, em outra ocasião, a floresta que parecia não ter começo, meio ou fim. Pensei: o que guarda e o que nos reserva essa imensidão? Hoje, com as queimadas em número alarmante, me veio a sensação de que, sim, a floresta pode ter fim, um dia.

Mas vejo que o revés sofrido pelo governo Jair Bolsonaro em seu embate contra dados científicos, fornecidos pelo Inpe, está sendo benéfico para a floresta. Mentiroso contumaz, Bolsonaro viu sua visão retrógrada, rancorosa, virar fumaça, a ponto de ter de se retratar e colocar a máquina do governo em ação para conter o que, segundo ele, não existia: o desmatamento acelerado. Na hora do olho no olho, o Capitão piscou. Será uma inflexão em um governo medíocre? Não acredito. Mas o abalo da popularidade de Bolsonaro é uma fissura real. Curioso que, mesmo de rabo entre as pernas, não se lembrou de pedir desculpas aos técnicos e cientistas do Inpe, que foram achincalhados semanas antes. Desculpas especiais a Ricardo Galvão, que perdeu seu cargo de diretor do Instituto.

Mas aí já é pedir demais. Nem Bolsonaro, muito menos os áulicos de seu governo, entendem a grandeza que o cargo de presidente da República traz consigo. O Brasil é grande demais para eles. Ou, talvez, quem sabe, sejam eles, homens medíocres, pequenos demais frente ao Brasil. Que eles sejam breves..

Crônica do filho da tempestade

Nasci em uma noite de tempestade. A chuva foi tão forte que, hoje, décadas depois, muita gente ainda se lembra dela na cidade. Choveu granizo. Muito. Nas casas e lojas, as paredes voltadas para o Oeste ficaram esburacadas pela força do gelo.

A fachada de vidro da Santa Casa ficou destruída. Minha mãe, Maria Nívia, ao chegar para dar à luz, teve que ser carregada no colo para não se ferir nos cacos. Com a tempestade, faltou luz na cidade e não havia gerador na Santa Casa. A sala de parto foi iluminada com a lâmpada trazida do sacrário por uma freira. Horas antes, minha mãe havia retirado com rodo e panos de chão a água da chuva que invadira a casa. Esse esforço, mais um jantar cujo cardápio foi tutu de feijão, carne de porco e uma taça de vinho (herança da família portuguesa), com certeza, anteciparam o trabalho de parto. Essa mistura fez com que a anestesia não tivesse efeito. Minha mãe deu à luz consciente, sentindo todas as dores do parto. Anos depois, ela me contou, rindo, que não sabia quem fez mais barulho, eu, chorando, ao nascer, ou ela, gritando, ao dar à luz. Dona Ana, no quarto ao lado, soube, pelo choro forte, que havia ganhado mais um bisneto. Minha mãe conta que, exausta, disse ao me ver: meu filho querido.

A chuva, o granizo, o vinho, a lâmpado do sacrário, os gritos, tudo isso aconteceu em poucas horas, naquela noite julho de 1959, na cidade de Piraju, na Alta Sorocabana, interior do Estado de São Paulo. Meus pais e meus tios sempre disseram: Hélcio, você é o filho da tempestade. Talvez venha daí meu gênio. Mais meia hora e eu teria nascido no dia 6.

Quem fez as contas rápido, sabe: na última sexta-feira completei 60 anos. Minha mulher ficou feliz: brincando, ela diz que vamos poder estacionar o carro na vaga do idoso. Para mim, é um assombro. Onde estive nos últimos 60 anos que não vi a vida passar? Agora falando sério, confesso: o passado só me serve de base para viver o presente e pensar o futuro. Me pego cheio de ideias e projetos, na vida pessoal e profissional. A vida me deu mais do que eu merecia: filhos queridos, família, amores e conquistas. Tenho por obrigação que devolver a ela, em dobro. Não sei se consigo. Mas tento..

Que falta fazem Drummond e Jorge Amado

O patamar do debate no Brasil regrediu tanto que o país, com mais de 500 anos, voltou à fase anal. Do presidente Jair Bolsonaro (que colocou golden shower na agenda da República) ao seu guru, Olavo de Carvalho, passando por diversos outros personagens, a fixação primária em sexo tem sido constante. Olavo adora mandar seu interlocutor “tomar caju” e tem naquela palavra pequenininha, de duas letras, uma arma que considera eficaz para neutralizar críticas. Pois é, ele adora tomar conta do fiofó alheio, o que evidencia fixação na fase anal, o segundo estágio da teoria do desenvolvimento psicossexual de Sigmund Freud, com duração dos 18 meses aos 3 anos de idade, quando a criança descobre o xixi e o cocô. Com 72 recém-completados, Olavo avançou a idade.

Pelas bandas de cá, a polêmica deu as caras com o livro “Beirage”, do poeta George Furlan, que atraiu a ira de grupos conservadores pelo uso de palavrões e críticas a Bolsonaro e boa parte da “lista telefônica”. O cerne da polêmica não é a obra em si, mas o dinheiro para sua publicação: “Beirage” custou R$ 20 mil, bancados com recursos públicos, do Fundo Municipal de Cultura. Muita gente esbravejou.

Qual o critério da publicação de uma obra? Ora, a qualidade. Nesse ponto peço desculpas a Furlan: não li “Beirage”, só os versos polêmicos. Mas quando vejo palavrões causarem alarde, ainda mais na poesia, me lembro de “O Amor Natural”, livro que alguns consideram pornográfico, lançado em 1992, após a morte de seu autor –Carlos Drummond de Andrade. Lembro também do “Dicionário de Palavrões e Termos Afins”, pérola do folclorista Mário Souto Maior. Traz mais de 3.000 verbetes e um ranking dos escritores que mais palavrões incluíam em suas obras, vencido por Jorge Amado, em especial por “Tocaia Grande”. Mas nem Drummond, nem Jorge tiveram essas obras bancadas por verbas públicas. Na política é diferente. Como deputado, com salário pago pelo contribuinte, Bolsonaro mandava, aos gritos, seus interlocutores fazerem a mesma coisa que Furlan o mandou fazer agora, em verso. Imunidade parlamentar? Pelo sim, pelo não, está na hora da gente parar de cuidar do fiofó alheio e levar o debate a outras esferas..

Março de 64, uma longa jornada noite adentro

Neste domingo, 31 de março, é dia de recordar do Golpe de 64. Não há o que comemorar.

Há exatos 55 anos, militares, sob a desculpa de evitar uma guinada do Brasil à esquerda, lançaram o país em uma noite que durou 21 anos, durante os quais a Constituição foi rasgada e o aparato do Estado foi usado contra o cidadão, por meio da censura, da perseguição, das prisões arbitrárias, dos sequestros, tortura e mortes. Os golpistas contaram com o apoio de setores da sociedade, temerosos de uma iminente ameaça comunista. A solução? Ruptura institucional: derrubar um presidente legítimo, João Goulart, sob o álibi de devolver o país à ordem. O que seria transitório (Castello Branco, primeiro presidente da era 64, prometia eleições em 65) virou Ditadura Militar, com generais se alternando no poder.

Tem gente que tem saudade.

Tem gente que chama isso de democracia. Bobagem. Ditadura é ditadura, aqui e acolá, de esquerda e de direita, de farda ou sem farda, pintada de verde, vermelho ou laranja. O presidente Jair Bolsonaro, egresso das Forças Armadas, diz que o Brasil teve uns “probleminhas”. A “Folha de S. Paulo” chegou a classificar o período de “ditabranda”. Sabem nada, inocentes. Se o bicho tem orelha de lobo, pelo de lobo, dente de lobo e uiva como lobo, batata: é lobo. Boa parte dos brasileiros não viveu sob a Ditadura, por isso é preciso lembrar dela sempre. Vale até mesmo a ordem patética de Bolsonaro para que as Forças Armadas façam as “comemorações devidas” de 64 neste 31 de março. Viúva da Ditadura, Bolsonaro tem em sua constelação de ídolos o general Brilhante Ustra, condenado pela prática de tortura; e, em sua constelação de bobagens, frases como “quem procura osso é cachorro” ou “o erro da Ditadura foi torturar e não matar”. Crente na sua imagem de Mito, Bolsonaro queria festa. Coitado. A Ordem do Dia do Ministério da Defesa é contida. E termina com a defesa do papel constitucional das Forças Armadas. É isso aí. No Brasil de 2019, a Ditadura de 64 é História. Mas devemos sempre lembrá-la por um motivo simples: evitar que erros se repitam. Por isso, obrigado, presidente, por nos ajudar, com seu mau exemplo, a refletir sobre nosso passado..