Que falta fazem Drummond e Jorge Amado

O patamar do debate no Brasil regrediu tanto que o país, com mais de 500 anos, voltou à fase anal. Do presidente Jair Bolsonaro (que colocou golden shower na agenda da República) ao seu guru, Olavo de Carvalho, passando por diversos outros personagens, a fixação primária em sexo tem sido constante. Olavo adora mandar seu interlocutor “tomar caju” e tem naquela palavra pequenininha, de duas letras, uma arma que considera eficaz para neutralizar críticas. Pois é, ele adora tomar conta do fiofó alheio, o que evidencia fixação na fase anal, o segundo estágio da teoria do desenvolvimento psicossexual de Sigmund Freud, com duração dos 18 meses aos 3 anos de idade, quando a criança descobre o xixi e o cocô. Com 72 recém-completados, Olavo avançou a idade.

Pelas bandas de cá, a polêmica deu as caras com o livro “Beirage”, do poeta George Furlan, que atraiu a ira de grupos conservadores pelo uso de palavrões e críticas a Bolsonaro e boa parte da “lista telefônica”. O cerne da polêmica não é a obra em si, mas o dinheiro para sua publicação: “Beirage” custou R$ 20 mil, bancados com recursos públicos, do Fundo Municipal de Cultura. Muita gente esbravejou.

Qual o critério da publicação de uma obra? Ora, a qualidade. Nesse ponto peço desculpas a Furlan: não li “Beirage”, só os versos polêmicos. Mas quando vejo palavrões causarem alarde, ainda mais na poesia, me lembro de “O Amor Natural”, livro que alguns consideram pornográfico, lançado em 1992, após a morte de seu autor –Carlos Drummond de Andrade. Lembro também do “Dicionário de Palavrões e Termos Afins”, pérola do folclorista Mário Souto Maior. Traz mais de 3.000 verbetes e um ranking dos escritores que mais palavrões incluíam em suas obras, vencido por Jorge Amado, em especial por “Tocaia Grande”. Mas nem Drummond, nem Jorge tiveram essas obras bancadas por verbas públicas. Na política é diferente. Como deputado, com salário pago pelo contribuinte, Bolsonaro mandava, aos gritos, seus interlocutores fazerem a mesma coisa que Furlan o mandou fazer agora, em verso. Imunidade parlamentar? Pelo sim, pelo não, está na hora da gente parar de cuidar do fiofó alheio e levar o debate a outras esferas..